Uma Criança que chorava

 

- Senta aí que teu pai te colocou para fora!

Quando ouvi esta exclamação pensei que o caso envolvia um jovem ou um adolescente, mas para minha surpresa não era um e nem outro. A frase era direcionada a um menino de aproximadamente cinco anos de idade.

Fiquei sem saber qual atitude tomar. Eu estava indo na direção de uma padaria – era ainda bem cedo. A mãe ainda completou como se a criança tivesse noção exata das coisas: “Eu tenho que resolver uma coisa!”.

O menino ficou ali sentado, chorando com um pedaço de papel na mão. Meu coração cortou diante da cena.

Um pouco distante, um homem estava em pé no portão, observando a mulher que se distanciava. Acredito que era o pai da criança. Nesse momento uma velha senhora gritou para o homem: “vá atrás dela!”. Ele não se moveu do lugar.

Indo em direção à padaria, pensei comigo: se na volta essa criança estiver sozinha, vou levá-la para a minha casa até a situação se resolver. Porém, não foi necessário – na volta não vi mais ninguém.

Fiquei pensando naquela situação, imaginando o impacto daquele acontecimento na mente daquela pobre criança. Com certeza ela não compreendeu o ocorrido. Somente uma coisa ela viu: a mãe indo embora, enquanto sozinha chorava, sentada na beira da calçada – chorava por não entender o que estava acontecendo com os seus pais.

Aquela cena nunca mais sairá da mente daquele menino. Para os pais, talvez fosse apenas mais uma discussão, contudo para ela foi uma tragédia. Certamente ela não se lembrará dos pormenores do fato. É provável que apenas sinta as consequências negativas daquilo durante toda a sua vida.

Isto acontece porque dificilmente nos lembramos do que ocorreu nesta faixa de idade. A mente geralmente omite grande parte dos acontecimentos no período de zero a cinco anos de idade. Este processo psicológico é um tipo de defesa do cérebro para evitar o sofrimento. Entretanto isto é em vão. O fato de esquecer não nos poupa dos sintomas em nossa vida. As marcas ficam e de vez em quando sentimos os efeitos das tragédias ocorridas conosco ainda quando crianças.

Não podemos mudar o nosso passado, contudo podemos dar aos nossos filhos um passado melhor – o presente de nossos filhos hoje será o passado deles amanhã. Então, se queremos que eles sejam felizes devemos tomar muito cuidado com o que falamos com eles no presente. Devemos ficar atentos também com o que fazemos ou falamos com quem está ao nosso lado.

Uma palavra, um fato negativo pode mudar tudo no futuro dos nossos filhos. Lembremos que a personalidade e o caráter deles são construídos no dia a dia de cada um. Eu não sei qual será o futuro daquela criança que chorava na calçada, mas de uma coisa eu sei: a história dela ainda está sendo escrita, e a dos nossos filhos e filhas também – o futuro é incerto, mas o presente não. Façamos do presente um aliado no futuro daqueles que amamos.

Nelson Costa